
O papel do Educador de Infância no ato de brincar
O adulto deve, acima de tudo, valorizar a importância que o próprio ato de brincar tem no desenvolvimento, aprendizagem e crescimento de uma criança. Desta forma, a criança apropria-se da sua própria brincadeira, permitindo que seja ela a escolher com o que quer brincar, com quem e como o quer fazer, não perdendo o seu carácter lúdico.
Kishimoto (2003) defende que o educador pode, enquanto a criança brinca, fazer questões que a levem a refletir e a atribuir sentido às suas vivências. No entanto, estas questões devem ser colocadas sem "segundas intenções", ou seja, sem que o educador procure ensinar algo acerca daquela brincadeira. É assim relevante que o educador não seja intrusivo na brincadeira que a criança está a ter, dado que o importante é a criança brincar e explorar a sua brincadeira, tendo a liberdade de se poder envolver com os materiais na descoberta de novas aprendizagens e que sejam do seu interesse.
O educador de infância possui, assim, um papel fundamental no que diz respeito às brincadeiras das crianças. Este papel reflete-se na mediação e na observação, uma vez que é através da observação que o educador vai percebendo a criança e compreendendo o seu nível de desenvolvimento e conhecimento. A este respeito, Ferreira (2010) diz-nos que "a partir das observações (…) podemos obter informações essenciais, relacionadas com a formação pessoal e social, (…) a expressão e a comunicação e o conhecimento do mundo" (Ferreira, 2010, p. 12).
O adulto pode ainda auxiliar a criança na tomada de decisões, quer seja na interação com a mesma, em ambas as partes, ou como intermediário da brincadeira, como por exemplo, quando o educador tece comentários sobre as brincadeiras, participa nela ou quando representa papéis. É importante que o educador não opte por corrigir as brincadeiras das crianças, nem dar indicações de como elas se devem fazer, uma vez que a brincadeira faz parte do imaginário de cada criança.
Em contrapartida, o educador não deve deixar de se envolver nas brincadeiras das crianças. Por sua vez, deve respeitar o espaço e as descobertas que as mesmas fazem, nos seus ritmos e por elas mesmas. Ao respeitar a criança, o educador consegue tomar uma atitude não intrusiva e questionar, apoiar e desafiar a criança no reconhecimento das suas capacidades, do seu pensamento e das suas relações com os pares. Desta forma, o adulto enriquece o desenvolvimento da criança com propostas que vão ao encontro dos seus interesses.
A conceção que o educador tem acerca da brincadeira, é também muito importante na criação de ambientes propícios ao desenvolvimento da criança, enquanto sujeito ativo, com capacidades, detentora de saberes, livre e ávida de exploração ao meio que a rodeia. Assim, a criação de um ambiente educativo que seja impulsionador da liberdade de exploração da criança, confere-lhe autonomia para crescer e conhecimento.
Para além da criação de ambientes propícios, o adulto deve também brincar com a criança. Durante a brincadeira entre ambos, além de ser reforçada a ligação entre o educador e a criança, é também realizada a articulação das várias áreas de conteúdo, proporcionando desafios que estimulem a criatividade, a curiosidade, a expressão de sentimentos e o raciocínio acerca dos interesses e características das crianças. Desta forma, o educador não deve ter receio em brincar com a criança, pois é através desta brincadeira que o mesmo consiga observar, registar e refletir sobre mais desafios a colocar à criança, aumentando o seu grau de complexidade. Assim, para que o educador possa "ouvi-las, compreendê-las, deve ser "capaz de «ler» os seus sinais, de compreender as outras linguagens que a criança usa para participar, comunicar e narrar (…)" (Azevedo & Sousa, 2010, p. 34).
Presente na Lei-Quadro da Educação Pré-Escolar, cabe ao educador a gestão do seu currículo e, para isso, as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (OCEPE) são um ponto de partida e também uma base para a formação dos pontos de referência. Referente nas OCEPE, a organização do meio educativo, do grupo e do tempo é da responsabilidade do educador, sendo que
Esta organização constituiu o suporte do desenvolvimento curricular, pois as formas de interação no grupo, os materiais disponíveis e a sua organização, a distribuição e utilização do tempo são determinantes para o que as crianças podem escolher, fazer e aprender. Importa, assim, que o/a educador/a reflita sobre as oportunidades educativas que esse ambiente oferece (Silva et. al, 2016, p. 24).
A pedagoga Maria Montessori foi sempre apologista da criação de um ambiente educativo benéfico para o desenvolvimento da criança, por parte do educador. Esta intencionalidade educativa está implícita em todas as decisões que o educador toma em relação à sala de atividades, sobretudo na disposição e nos materiais presentes, cujos devem exercitar e proporcionar atividades motoras e manuais à criança (Marques, 1999).
Assim, um ambiente pensado em torno dos interesses da criança, faz com que os seus sentidos e ações sejam estimulados pelas áreas onde brinca, suscitando aprendizagens sobre o mundo que a rodeia.
Para concluir, Brock (2011) diz-nos que
o desafio para os educadores é como usar o conhecimento prévio, as experiências e os interesses das crianças de modo a engajá-los e motivá-los em um currículo que faz sentido humano, gera motivação e explora cenários de vida real. Vamos encorajar as crianças a brincar! Quando consideramos o que nós valorizamos como de importância na experiência de aprendizagem, nós agora precisamos mudar o foco para as necessidades da criança, não apenas ao cumprimento do currículo (Brock, 2011, p. 223).
