
Arquitetura do Cérebro e Experiências Precoces de Qualidade
Como sabemos, a ação de um/a educador/a de infância é extremamente impactante no dia a dia de uma criança, tanto na sua adaptação como no seu desenvolvimento e crescimento. O cérebro, por sua vez, desempenha um papel preponderante nas funções diárias exigidas pelo nosso corpo, sendo a sua atividade importante nos primeiros anos de vida para a conectividade das sinapses. Portanto, os adultos assumem um papel fundamental na fase inicial do desenvolvimento cerebral e biológico da criança, dado que esta se encontra mais sensível às influências do ambiente e as experiências vividas afetam significativamente o desenvolvimento do cérebro nesta fase. Katz (2006) vêm reforçar esta ideia, destacando que
"[...] os primeiros anos deverão ser marcados por uma exploração activa em ambientes ricos e seguros. Isto é, bons programas de qualidade incluem frequentes oportunidades de interacção com pares, com adultos e com os ambientes, por forma a apoiar a busca inata de discernimento àcerca das relações de causa e efeito, da sequência de acontecimentos e outros padrões circundantes" ( Katz, 2006, citado por Oliveira & Cunha, 2007, p.32).
Assim, para o desenvolvimento saudável das crianças, é crucial ter relacionamentos responsivos e vinculações positivas com os adultos, pois o contrário pode revelar-se prejudicial para a saúde, desenvolvimento e sobrevivência das crianças.
Conforme mencionado anteriormente, ao longo dos anos, torna-se cada vez mais claro que os primeiros anos de vida de uma criança têm um enorme impacto no seu desenvolvimento, aprendizagem e saúde em geral. Os primeiros três anos de vida de uma criança são uma janela de oportunidades para o cérebro, porque é o momento em que são estabelecidas as bases para um desenvolvimento neurológico ideal ao longo da vida. Nesta altura, as áreas centrais de desenvolvimento do cérebro passam por períodos sensíveis, que se tratam de momentos de prontidão para o desenvolvimento ideal. Como as experiências durante os primeiros anos de vida têm um grande impacto no desenvolvimento do cérebro, as crianças encontram-se mais vulneráveis a influências negativas que ocorram durante este período de forma contínua. Por sua vez, se as primeiras experiências forem positivas, resultarão em oportunidades de realização, sucesso e felicidade das crianças. Desta forma, é possível perceber que a maioria dos elementos de desenvolvimento do cérebro ocorrem antes de as crianças atingirem a idade escolar, através da interação entre os fatores biológicos e as experiências vividas.
No primeiro ano de vida, a criança começa a desenvolver a competência de regulação emocional e vivencia o surgimento da linguagem, dada a interação da criança com a sua própria cultura, as experiências vividas e ainda com os estímulos que recebem das pessoas que as rodeiam. Por sua vez, durante o segundo ano de vida da criança, a interação com o meio, com os outros e os estímulos influenciam a aquisição de competências de conceitualização. Durante este período, as crianças também iniciam a socialização começando, assim, a desenvolver habilidades sociais entre os seus pares, mostrando uma participação ativa no seu próprio desenvolvimento.
Considerando que os educadores de infância têm uma grande interação com as crianças, cuidam delas e são uma referência para elas, a intervenção dos mesmos é determinante em crianças de creche e do pré-escolar. Isto ocorre porque é nos primeiros três anos de vida que se constatam mais oscilações dos elementos do desenvolvimento cerebral, ou seja, nesta fase em que as crianças têm um cérebro mais ativo que um adulto, qualquer interação com o outro e as experiências vividas representam oportunidades de aprendizagem que promovem o desenvolvimento da criança. Tendo esta importância no desenvolvimento das crianças, cabe ao educador criar um ambiente educativo adequado e com uma forte intencionalidade educativa, de forma a promover experiências e oportunidades de qualidade, visando potencializar a aprendizagem e desenvolvimento de todas as crianças, refletindo aspetos da sua cultura que influenciam as práticas educativas, com o objetivo de garantir um processo saudável de adaptação das crianças. Essas experiências devem contemplar a relação da criança consigo própria, com os outros e com o mundo que a rodeia, dando-lhes autonomia na exploração de situações, mas também criando cenários de interdependência entre elas.
Podemos também concluir que a maior parte das oportunidades de desenvolvimento destas capacidades básicas ocorrem no período pré-escolar, o que significa que, após esse período, falhas a nível do desenvolvimento tendem a ser mais visíveis, seja em dificuldades intelectuais, físicas ou de socialização. Isto vai de encontro à ideia defendida por Portugal (2008), que diz que as experiências vividas pelas crianças nos primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento cerebral, por isso, quanto mais qualidade tiverem as ligações neurológicas, mais enriquecedora será a experiência para o processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança.
