
Qualidade da educação em creche
A conceção de qualidade de educação, assim como o conceito de qualidade de vida dependem de fatores concretos mas, ao mesmo tempo, são inerentemente subjetivos. Embora seja um enorme desafio definir qualidade, de acordo com a European Commission Childcare Network (1990, citado por Barros, 2007) , uma educação de qualidade tem como propósito garantir que as crianças têm a oportunidade de vivenciar uma vida saudável, expressar-se espontaneamente, ser valorizadas como indivíduos, ter dignidade e autonomia, sentir autoconfiança na aprendizagem, ter uma educação estável e um ambiente afetuoso, desenvolver a sociabilidade, estabelecer laços de amizade e cooperar com os outros, igualdade de oportunidades independentemente do gênero, raça ou incapacidade, valorizar a diversidade cultural, e receber apoio como membros de uma família e de uma comunidade. A National Association for the Education of Young Children também propõem um conceito para definir alta qualidade que "consiste num meio ambiente rico que promove o desenvolvimento físico, social, emocional e cognitivo das crianças, respondendo igualmente às necessidades das famílias" (Bredekamp, 1992, citado por Katz et. al, 1998, p. 48).
Segundo um estudo realizado por Portugal (CNE, 2011), o que caracteriza programas de alta qualidade são a natureza e qualidade das interações entre bebés e educadores, entre profissionais de educação e entre os profissionais e as famílias.
As interações com os adultos são das primeiras relações que um bebé vivencia. A creche é, assim, um dos primeiros ambientes em que uma criança entra em contacto com outros adultos e crianças exteriores ao seu núcleo familiar. Segundo Carvalho (2005), a qualidade dos cuidados prestados às crianças, independentemente do ambiente em que elas crescem, e a qualidade desse ambiente em si são extremamente importantes para o seu desenvolvimento. Os cuidados prestados assumem um impacto ainda maior em crianças dos 0 aos 3 anos, pois é nessa fase que são estabelecidas as bases para o desenvolvimento neurológico ideal. Por essa razão, as crianças estão mais suscetíveis a experiências negativas que ocorram durante esse período. Diversos autores referem, e destacam, a relação existente entre a qualidade dos ambientes educativos e o desenvolvimento das crianças, dado que é possível observar que a qualidade dos contextos educativos tem um enorme impacto na aprendizagem das crianças. Alcarrão (CNE, 2008) vem reforçar esta ideia afirmando que:
Numa perspectiva holística, ecológica do desenvolvimento, em que os contextos têm uma influência decisiva, pergunta-se se os nossos contextos educativos são favorecedores do desenvolvimento. Pergunta e responde: sim e não. O sim aponta para o progresso feito nos últimos anos. O não é uma chamada de atenção à qualidade (...).(CNE, 2008, p. 26-27).
De acordo com Carvalho (2005), interações positivas entre adultos e crianças permitem que estas vejam o adulto como alguém em quem podem confiar, alguém que irá apoiar e auxiliar a sua exploração sobre o mundo, expandindo a sua mundividência e o conhecimento de si mesma. Portanto, destaca-se a importância de estabelecer vinculações seguras para o bom desenvolvimento cognitivo das crianças e para a sua construção enquanto indivíduos. Em contexto de creche, para além da interações com outros adultos, a criança também tem a oportunidade de contactar com outras crianças, estas interações potenciam o desenvolvimento de competências sociais. Neste ponto, consideramos importante destacar os estudos realizados por Clarke-Stewart (citado por Carvalho, 2005), que comprovam que as crianças que frequentam creches desde o seu primeiro ano de vida tornam-se indivíduos mais sociáveis, confiantes, perseverantes, resilientes e com habilidades para resolver problemas. Quando essas mesmas crianças ingressam no jardim-de-infância sentem-se mais à vontade perante novas realidades e contextos, são menos tímidas e ansiosas, e apresentam maior espírito de grupo e cooperação.
Assim, de forma a assegurar uma creche de qualidade, onde o ambiente educativo e as relações com os outros são valorizadas, é essencial encontrar um educador sensível e empático, capaz de promover a autonomia dos bebés, que possua bases e conhecimentos sobre o desenvolvimento e características das crianças pequenas, que valorize e entenda a importância das relações precoces e, ainda, que desenvolva um trabalho conjunto, em parceria com as famílias (Conselho Nacional de Educação, 2011). De acordo com Conselho Nacional de Educação (2011), alcançar esse trabalho de alta qualidade com crianças pequenas, "requer conhecimentos específicos, competências e uma planificação apropriada, sustentada no conhecimento do desenvolvimento nos primeiros anos de vida e envolvendo muita flexibilidade para responder às necessidades de cada criança e família." (Conselho Nacional de Educação, 2011, p. 49).
